Hamilton Faria: vida e obra
Encantar a palavra e o mundo: eis a força destinal da poesia.
Hamilton Faria

12 de junho de 2026, Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba



Este livro é uma poética da memória, visita lugares existentes numa infância fabulosa, – como na idade das fábulas —, olhando o mundo dos seres vivos em rede de relações, conversando entre si e com a própria vida. A alegria dos pêssegos, a crueldade da vara de marmelo, o sangue das pitangas, a tarde debruçada nos muros para ver a mãe cantar; e amoras, abacates, goiabas que nascem, como por encanto, ao pronunciar seus nomes; paisagens alumbradas da memória. A pereira toda noiva, o pinheiro sentia dores quando descascado, o pequeno que ama a alma dos bichos, as roupas que riam no varal, habitam num só lugar de encantamento: onde o menino cria seus mitos para viver num mundo de sopros e epifanias. Aí o poeta constrói a sua vida de frutos, contando mitos para que a sua herança sobreviva.
A mãe, personagem central desta poética, constitui-se de amor e águas, com sua generosidade, força, também austeridade e simpleza. Lembra anotações do diário de Carlos Drummond de Andrade sobre a mãe: “Vou-me aproximando de ti porque envelheço, e minha vida volta às origens. Abençoa-me e acaricia-me, porque sou sempre criança a teus olhos, enquanto o velho em mim se confirma. E se dentro de mim existes, em ti também vou existindo, e nossas vidas se confundem, apesar do muito que te esqueço.”
Emocionante a presença da mãe nesta poética (mãe que alimentava a vida com pão e chuva!) onde o filho traça o seu horizonte a partir de suas vivências de quintal; e pai, mãe, irmãos, bichos, frutas, sonhos, fazem parte do espetáculo da vida, tecendo os mesmos fios; vida sempre celebrada pelo poeta, origem de encantamento. E a poética da mãe é o ambiente e o tecido da memória, que liga todas as coisas vivas do quintal no real-imaginário do poeta.
Aqui os frutos têm memória, amam e dão sentido ao humano existir. Vibram quando a vida ganha centralidade nesta cosmogonia da infância, onde o poeta vai recolhendo seu ouro mais puro: a linguagem poética precisa e doce, de quem sabe falar com ternura e domínio da língua. Ou como confirma a poeta Helena Kolody: “Você é um artista da palavra, que viaja para além das palavras. Tem um domínio completo. A tua poesia
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